domingo, 11 de outubro de 2015

Rex, o cão malabarista


Luiz Sanches

Rex é um cachorro de luxo, super bem treinado pelo amadíssimo dono. Ele é de uma raça especial que possui facilidade para aprender manobras, peripécias, malabares e pulos fantásticos ensinados com muito esmero pelo seu amado dono.  Rex não entende de raças de animais e para ele, todo cachorro é simplesmente cachorro. Seu maior prazer é lamber o rosto de seu dono, sem que haja qualquer motivo ou comemoração.
Para o Rex, qualquer dia é dia. Ele não entende de dia de apresentação, dia de ficar em casa ou dia de treinar. Ele somente percebe que escureceu e após está claro novamente. Ele aproveita cada hora como pode, sem visão de futuro ou de passado. É claro que não sabe que um dia vai morrer, como qualquer outro ser vivente, mesmo assim aproveita melhor o seu dia do que aqueles que sabem que têm um dia limite em suas vidas.
  Rex não entende por que os humanos gritam tão alto quando ele executa alguma manobra, principalmente o salto duplo... Para ele é tão natural; o aprende desde filhote e para ele, todos os cães do mundo sabem fazer tais manobras. O que ele entende é que vai ganhar mais um petisco se fizer a manobra bem feita, porém, se errar, terá que ouvir duras palavras de seu dono, que ele não compreende o significado; só sabe que são bravas e fortes.  Ao fim de um concurso, deste que tem um monte de outros cães pulando, o dono do Rex sempre recebe de um outro humano um monte de papel que deixa o seu dono muito feliz e este imediatamente mostra estes papeizinhos ao Rex, e ao mesmo tempo, entrega uma monte de petiscos saborosos, raros, que deixa Rex também feliz. Ele não entende por que o dono fica tão feliz com esses papeizinhos, afinal não os pode comer! Rex até gostaria de brincar de rasga-los, mas o dono os guarda feliz na carteira.
 Por vezes, seu dono o leva para um local grande, repleto de plataformas para pular e demonstrar seus esplendidos malabares, repleto de humanos estridentes e desconhecidos. Neste dia seu dono parece sempre esquecer de o alimentar, só o fazendo na hora de realizar suas manobras e claro, Rex quer realizar bem as manobras para poder imediatamente se alimentar. Num destes dias, Rex como sempre antes de ir ao local grande, é colocado numa jaula que fica em cima dum objeto de rodas (e ele sabe o que são as rodas, pois sempre urina nelas para marcar território) que anda sozinho nas ruas, até o lugar de se apresentar e hunnn... Comer seus petiscos. No meio do trajeto, um outro objeto de rodas bateu com força na traseira do objeto de rodas onde o Rex se encontrava, abrindo sua jaula e o fazendo fugir rua afora apavorado. Rex estava em um lugar completamente desconhecido, sem direção ou alguém que o mandasse voltar, demonstrando qual rumo seguir. Com medo de tudo que o cercava, andando sem saber para onde, a procura de seu amado dono, ele sente o cheiro de outros cães, que o leva a uma grande praça, lotada de cães e humanos.
Rex está faminto. Cachorros sabem caçar para se alimentar, mas ele nunca caçou. Cachorros deveriam buscar abrigo e segurança quando soltos em locais desconhecidos e apesar do medo, ele não procura um lugar seguro, porque se acostumou a confiar em qualquer humano, mesmo desconhecido.
 Por um instante, ele se esquece que estava sozinho e sem rumo, a procura do amado dono e começa a observar ao seu redor. Ele nunca viu cães tão à vontade sem estar apresentando fantásticas manobras aéreas. Rex percebe que os outros cachorros não sabem correr atrás da bola, nem fingir de morto ou pular na árvore para amordaçar uma bola presa, e ainda assim são felizes. Ele não compreende por que cães sem função específica podem se dar ao luxo de terem felicidade. Estes somente brincam, e brincam sem que seus donos os mande brincar. Rex não entende por que seus donos oferecem petiscos a seus cães, se estes não realizaram com maestria qualquer manobra aérea, ou sequer deram a pata.  
Uma bola cai ao seu lado e outro cão se aproxima para pegá-la com a boca, e ao fitar o Rex ali bobão, parado, late no intuito de lhe chamar a atenção e ter com quem brincar, mas Rex nada faz, ou melhor, nem sabe o que fazer ou não lhe mandaram o que fazer. O cão late, pula aos lados do Rex, late novamente, pula a sua frente e o Rex, atordoado, sem uma resposta de qual manobra deve executar, permanece imóvel. Seu dono o ensinou que ao levantar os braços, ele deve se levantar nas patas de trás e latir. Mas este cão não tem mãos nem faz nenhum comando específico. E Rex quer brincar, mas como? Um tempo passa, o dono do cão o chama, este pega a bola e retorna. E novamente Rex sozinho não tem quem o guie.
 Enquanto utiliza seu apurado faro para obter qualquer pista do rastro de seu amado dono, Rex observa outros donos acariciando seus cães.  Porque os donos perdem tanto tempo acariciando seus cães sem lhes ensinarem a se fingirem de mortos?
 Repentinamente, um cão se aproxima e lhe cheira o rabo. Rex não tem o costume de ter um cão perto que faça isso com ele, mas instintivamente ele já sabia para que serve isso, vira-se e cheira o rabo deste outro cão e, mesmo que seu dono não lhe tenha ensinado, Rex sabe que este outro cão é uma fêmea, e está no cio. Ele só sentiu o cheiro de uma fêmea muito de longe, da rua, enquanto estava preso em casa. E ele não tem a mínima ideia do que fazer. Seu corpo por instinto tende a o levar automaticamente a carícias próprias dos cães, como mordidas, esbarrões e pulos, porém, o que Rex sabe fazer de melhor é malabarismo. Ele sabe que vai impressioná-la e, em grande frenesi, não por um petisco qualquer, mas por uma felicidade talvez maior do que ver seu dono ao fim do dia, Rex rola na grama para chamar atenção da fêmea, pula de costas, late coordenadamente, ao passo que a fêmea, receptiva, e por coincidência, da mesma raça, mansinha, se ajeita de costas para Rex, na esperança de que este comece o coito, afinal, os cachorros não precisam previamente estarem em um jantar à luz de velas para começarem a entrar no clima. E Rex não entende bem os desejos da fêmea. Pula com salto duplo a sua frente, mas esta somente o observa enquanto aguarda para iniciarem o namoro. Seu instinto de cão o impulsiona a realizar algo, mas ele não sabe o que. E ele latindo na esperança da fêmea fazer algo, já que deve retornar à procura pelo ao seu dono tão logo seja possível, o dono da Fêmea a chama para irem embora. Rex late para a fêmea voltar, balança as patas dianteiras como em movimento de luta, senta em somente duas patas traseiras, se põe de pé como um humano e apesar de todo o malabarismo a fêmea não volta. Ele fez tanto e ela nem notou.
Rex se sente só mesmo estando no meio de tantos humanos e cães e não sabe viver sem seu dono. Ele se sente o único capaz de realizar os meus belos malabarismos, ainda que nenhum cão se interesse. E o vento trás as suas narinas o mais agradável cheiro para ele: o cheiro do seu dono por perto. Rex parte em disparada em busca do seu cheiro e reencontra o dono desesperado a sua procura. O dono o recebe com pesada voz, dedo ameaçador na direção do seu rosto e o acorrenta para o levar de volta para casa. 

 No outro dia, já de volta a sua pequena casinho de cachorro de madeira que se encontra no quintal, que não mais cabe as pernas esticadas, Rex sonha feliz. E no seu sonho ele se vê correndo solto na praça com os outros cachorros, sem realizar qualquer manobra. Mas seu dono não está no sonho! E de repente ele acorda: ufa! Era só um sonho! Ele sente o cheiro do seu dono vindo da grande casa e se sente confortável para voltar a dormir.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Clemena sonha na cama





Luiz Sanches

Clemena permitiu que o tempo deixasse aparente a sua idade. Rugas a ressaltam, cabelos pintaram-se de branco, às mãos nasceram veias a mostra e nas vestimentas antigas os rasgos concertados aparecem aos montes. Deitada à cama, sozinha pela manhã sem dormir por toda a noite. O sol entra sem permissão, batendo-lhe no rosto, pelo vidro quebrado da janela tão antiga como a dona.
Clemena sofre de dores na região do coração. Já viveu muito e não teme a esperada passagem para a outra vida prometida. O sorriso carinhoso que nunca a deixa contorna-lhe o rosto quando lhe vem as memórias do passado. Lembra-se dos gostosas tempos idos de menina. Sofrendo na cama, a memória é o artifício de sustento da alegria que nunca se separou da doce velhinha.
Clemena é levada pela companheira memória ao tempo de quando era menina e subia em árvores para pegar frutas, escondida dos pais, claro. Assim, a fruta ficava muito mais doce do que se alguém pegasse para ela. Na antiga fazenda familiar, disputava pega-pega com os cinco irmãos mais velhos e três primos. O cachorro de pêlo listrado tropeçava querendo brincar com os meninos que fugiam um dos outros na brincadeira do pega-pega. Clemena nova e de pernas curtas não tinha como correr muito e sempre era pega, ai era ela que deveria pegar um outro, quase sempre sem sucesso, o que a fazia por vezes sentar e chorar, sendo logo consolada por um irmão que se deixava pegar. As brincadeiras eram as mais divertidas: de roda, de pular corda, de bolinhas de gude, sempre expulsa por um menino que entendia que aquilo não era brinquedo de menina. Tinha também o adorável e demorado esconde-esconde. Era pura diversão quando algum menino inventava um esconderijo jamais pensado ou quando alguém era descoberto; tinha que correr com todas as forças até o "pique". As bonecas eram raras, porém não as feitas de pano ou de palha, pela prestativa mãe, que sempre se empenhava em fazer uma boneca mais bonita que a outra. Clemena ficava horas tentando pegar um passarinho que desse bobeira e pudesse ser engaiolado, para logo ser solto dentro de casa.
Houve uma vez que ela e dois irmãos se perderam tentando acorrentar um cavalo diferente que apareceu na vizinhança. Sem o cavalo e sem o rumo de casa, inventavam instrumentos mágicos, fabricados de capim, galhos de árvore e sementes que pudesse trazê-los de volta à casa. Cantarolando e pulando, clamavam o santo preferido para leva-los em casa. Sem querer, chegaram na hora que a mãe saia à porta de casa para chama-los para o almoço, sem desconfiar das peripécias dos meninos. O ensejo virou um segredo da turma que sonhava todas as manhãs em voltar para desta vez capturar o cavalo. Discutiam que aquele cavalo era um unicórnio que tem o poder de desaparecer no meio da mata, por isso não conseguiram o capturar.
Como bons amigos e irmãos, confidentes e unidos, tinham aquelas longas conversas noite adentro no mesmo quarto, ou para acalmar a pobre Clemena que tinha medo do barulho das arvores e do vento e não conseguia dormir. Nas conversas com uma das primas, Clemena revelava todos os seus profundos segredos e desejos, escondidinhas no galinheiro para ninguém ouvir.
Comiam doces dos mais variados sabores e formas. Conheciam bichinhos das mais esquisitas espécies. Ninguém tinha medo de pegar alguma doença por estar descalço ou se molhar na chuva. Enfim, Clemena viveu uma infância simples, mas repleta de aventuras, alegrias e novidades.
Clemena de volta a vida atual mantendo os olhos fechados, que lhe permitiam viajar a infância; não possui mais força para abri-los, nem mais os abrirá. O sorriso vai se fechando e a última lágrima resvalando pelos caminhos repletos de rugas do rosto. Clemena chora uma última lágrima não pela sua viagem ao além, nem por se encontrar só neste último instante, mas pela neta que está na sala, acorrentada ao computador, que jamais terá lembranças tão doces da infância como a avó. O computador tem joguinhos, mas não tem frutas, nem pula-pula, nem cavalos, de verdade. Quando a neta crescer usará o computador para trabalhar, mas já grandinha nunca usará uma corda para pular nem um peão e muito menos saberá o que é esconde-esconde.