terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O soldado Vírus




Luiz Sanches

-Muito bem rapaz! Em pé! Prepare-se para as minhas instruções! Você nasceu a dois segundos atrás e já é rapaz pronto para a guerra! Você é um vírus da gripe! Estamos recrutando homens para a grande batalha nos pulmões. - Diz o enfurecido general da gripe, condecorado por ser herdeiro de uma família que há dois dias consegue com força total deixar o hospedeiro de cama.
-Mas general, eu quero me casar e ter filhos. Daqui a cinco segundos terei maturidade para isso. Minha vida é muito curta para ficar brigando! - Diz o soldado recém chegado ao mundo.
-Nada disso soldado! Já vivi muito tempo nesta célula e sei que isso é o melhor para você! Junte suas armas! Temos bomba de efeito moral que provoca cansaço, metralhadora de espirro e chicote de dor no corpo. Sua função é dominar esse corpo hospedeiro! Este corpo é seu, tome-o lutando até o fim. Não podemos aceitar que nenhuma outra bactéria ou vírus tome conta desse hospedeiro! Somos os únicos e legítimos donos desse corpo! Somos a única raça que deve existir!
-Mas general, esse hospedeiro é muito grande. Porque não vivemos felizes encubados em um órgão qualquer, sem atacá-lo? Pra mim não importa se existem outros vírus, podemos todos viver em paz!
-Deixe de asneira! Você nasceu em uma garganta, por isso é um garganteiro! Honre o seu órgão, que é o melhor que existe e vá lutar na batalha de dominação dos pulmões!
-Eu não acho que a Garganta é o melhor órgão que existe só porque nasci aqui, existem tantos outros com vírus diferentes que tem tanta coisa para nos mostrar.
-O que é isso soldado?!? Nós somos a única espécie de vírus que pode trazer a paz a este lugar, somos a única espécie inteligente, somos o orgulho da natureza, os seres mais bem feitos e completos que existem!
-Nós somos completos sendo acelulares?  Somos tão pequenos...
-Pequenos soldado? Pequenos? Não diga mais asneiras! Olha o seu tamanho, veja o quanto é grande! Pequenos são os átomos que vemos em microscópios! Nós somos enormes!
Chega o renomado cientista Gripalisom. Respeitado, vive a mais de cinco minutos: é uma lenda viva! Gripalisom informa ao general: "Senhor, descobrimos que o hospedeiro não é quadrado, que o quarto e a cama não andam em volta do hospedeiro, é ele que anda e que existem inúmeros outros hospedeiros na casa".
-Ótimo! Iremos dominar todos os hospedeiros da casa e quem sabe do quarteirão! - Fala o general sonhador, com lágrimas nos olhos. - Existe mesmo um quarteirão com casas, não existe?
-Ah... bom... ainda não sabemos General. -Responde Gripalisom confuso. -Senhor, também descobrimos que se ganharmos a guerra mataremos o hospedeiro e com isso morremos todos juntos!
-Então vencer a guerra não significa sair ganhado general? -pergunta o soldado indignado. Sem esperar resposta do general, o soldado solta a voz a todos os outros vírus que por ali rondam:
-Todos esses anticorpos são porque nós fizemos dores no corpo do hospedeiro e sujamos de toxinas seus rios limpos de sangue. Isso é uma defesa natural do hospedeiro. Este corpo irá ser novamente o que era depois que a gripe for erradicada! Ele foi destruído e maltratado, agora está se revoltando contra nós! Poderíamos ter vivido aqui pacificamente e por longo tempo, mas a exploração dos seus órgãos foi feita de forma inconsequente e agora sofremos a sua revolta. Esse superaquecimento global da febre é só uma das coisas que vai nos matar e já é tarde demais. Crescemos desenfreadamente em bilhões e achamos que poderíamos nos alimentar eternamente sem dar tempo para que o hospedeiro pudesse se renovar! Nós achávamos que éramos os únicos seres que tinham direito de viver sem respeitar o direito dos outros seres. Somos minúsculos e nos sentimos grandes. Vamos sofrer as consequências!
-Os anticorpos estão chegando!!! Os anticorpos estão chegando!!! - Diz um vírus correndo temeroso. - Abandonar o hospedeiro!!! Abandonar o hospedeiro!!! Todos para estibordo! Iremos sair no próximo espirro rumo a um novo hospedeiro.
Todos se juntam e são expelidos no último espirro antes da melhora do hospedeiro. Os que ficaram encontraram um ambiente hostil que impossibilitava a vida, fruto do seu ataque desenfreado e impensado ao hospedeiro. Os que foram expelidos viajam agora no espaço, a deriva, sem certeza de um rumo, com esperança de encontrar um novo hospedeiro para poderem dominar e colocar de cama.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pedaços de papel



Luiz Sanches

Vitor, 56 anos, casado, três filhos, moreno, sem camisa, catador de papel, sofredor e feliz.
Jocivaldo, não importa o que ele é ou faz; é somente o coadjuvante.
Tem também a polícia, mas eles só aparecem depois.
A Claudete vinha pela esquina ruma a sua casa. O Vitor vinha do rumo da casa da Claudete para a esquina. O Jocivaldo não importa aonde estava, ele é somente o coadjuvante, eu já disse! A policia? Já vou contar!
Pois então. A Claudete avistou o Vitor de longe catando os seus papeis e logo ela se apavorou, pois o Vitor poderia assalta-la, pensava Claudete. Chiquerérrima como anda, estava com colar, brincos e pulseiras de ouro. Não há outro caminho, tinha que passar pelo Vitor, na rua escura, sem ninguém, para chegar em casa. Outro poderia disser: “então porque não volta ou esconde o ouro”. Não! Eu estou contando a história e ela tem que passar pelo vitor! Que coisa!
Então, voltando: não que o Vitor se tratasse de qualquer ameaça eminente, mas os preconceitos da Claudete a ameaçavam ferozmente. Logo o coração, segurado pela garganta, contorcionava-se a cada passo ao encontro do Vitor, que nem estava dando bola para a Claudete. Paços apertados, Claudete no momento do encontro passa raspando pelo Vitor, quase gritando de medo, enquanto juntava as presas algumas pulseiras e as guardava no bolso.
-Dona! Oh Dona! Dona!!! –repetia Vitor para a Claudete, que apavorada fingia que não era com ela e apertava mais o paço. Tinha medo de parar e ser assaltada, mas o catador de papel logo chegou ao seu lado com uma das pulseiras da Claudete na mão. Como tinha conseguido rouba-la tão rápido? Claudete não esperou ser violentada e foi logo dizendo com as pernas bambas: “toma moço, pode levar, não precisa fazer nada comigo!”. E a policia nessa hora? E o Jocivaldo? O Jocivaldo não importa, mas a policia dobrava a esquina neste instante.
-O senhor aí! Oh vagabundo! Mãos para cima!
Vitor, sem obedecer, questiona:
-Não moço! Eu “to” é devolvendo para ela. Não sou ladrão não! Sou trabalhador, tenho três filhos e...
E repentinamente toma um tapa do policial, o catador sem camisa, que logo ouviu o ouvido tinintar um “zum zum zum”. “Você está achando que eu sou trouxa é?” –responde logo o policial. E o Jocilvaldo? Já disse que não importa! Deixa eu continuar a história...
-Ai que bom que o senhor apareceu. Ai... que bom... –Dizia Claudete, bamba, quase urinando nas próprias causas.
-Eu não fiz nada! Nunca na minha vida eu roubei! Nunca! Eu vi que ela deixar cair o bracelete e fui devolver. Sou honesto! –Vitor se defendia e agora o amedrontado era ele.
-Olha policial, eu vi tudo, este senhor (o Vitor) não roubou, a mulher ai deixou cair a peça. –dizia do nada um jovem que veio do outro lado da rua correndo: é Jocivaldo, vinte e três anos, solteiro, “boa pinta”, está estudando para passar no vestibular, caçula da família e adora jogar xadrez. É o salvador do injustiçado Vitor e deixou de ser o coadjuvante desta história... ufa, finalmente né?
-É verdade senhora? Pergunta intrigado o policial.
Claudete toma fôlego: “nossa, não sei”. Jocivaldo defende mais ao Vitor: “ele anunciou assalto? A senhora é que ficou com medo à toa!”
-Ai... é verdade! Ai moço (Vitor), desculpa, nossa, que vergonha.
Agora vem a parte interessante da história, continue lendo, não saia daí:
O policial solta o catador honesto. Faz as suas recomendações de que tome cuidado e vai embora. O tapa que Vitor levou ficou por isso mesmo. Vitor, humilhado, se vira para a Claudete:
-Eu nunca roubei na minha vida! Sou pobre, nasci pobre e vou morrer pobre. Não sei ler nem escrever, mas uma coisa que aprendi é seguir o que os meus pais me ensinaram: a ser homem! É o que eu ensino aos meus três filhos. Nunca roubem, podem passar fome, mas não precisam disso. Eu as vezes não tenho o de comer, mas também não tenho muito o que me preocupar. Os ricos tem tudo e se preocupam com tudo, pois podem lhes roubar as únicas coisas que possuem. Eu vivo bem e tranquilo, sem preocupações com o amanhã. Nós somos pobres, mas descobrimos a felicidade nas pequenas coisas. Sou feliz com a minha esposa e filhos e não preciso de muito para viver. Os ricos precisam acrescentar mais coisas dos shoppings para preencher o que lhes faltam e nunca estão satisfeitos, porque felicidade não se compra. As pessoas perdem muito tempo da vida se importando com o material e morrem sem se tornar felizes no simples, e não conseguem cumprir com o objetivo principal da vida, que é ser feliz.
Claudete, amargurada, em casa, um tempo depois deste ocorrido, pensa nas palavras de Vitor. Questiona se ele realmente é feliz. Talvez esteja neste momento, sem muito o que comer, mas rindo com os filhos, e ela, sem um amigo sequer.
Assim termina essa história rápida. Ah! Já ia me esquecendo: o Jocilvaldo passou no vestibular e virou o orgulho da família!